domingo, 27 de julho de 2008

VIAGEM AO FIM DO MUNDO



A minha viagem começou numa página de papel, povoada de branco.
Eu queria ir ao fim do mundo, arriscar o segredo que ninguém conhecia.
Agarrei então na trouxa e comecei a caminhada; papel, lápis e as minhas lembranças encheram a sacola que pus nas costas e peguei no velho pau que tinha no jardim, que há muito tempo amparava a borracheira que tristemente tentava crescer no jardim húmido das chuvas .
Entrei pela estrada que levava ao coração, sabia a sangue a atmosfera que me deixava sair do meu lugar. Os mortos amontoavam-se no velho cemitério ao fim da aldeia que sonhei nessa noite. Despedi-me da morte que a vida parecia, era uma viagem que não sabia se teria regresso. Caminhando, uma leve penumbra ia-se dissipando mesmo em frente dos meus olhos e arrasava os raios de sol que tentavam entrar no meu confortável temperado calor que sabia bem.
Ao fim de alguns metros já o sol vencia, sem eu querer, porque sempre detestava o seu calor, era como um amigo que se quer mas que não se quer perto.
Abri os braços e tentei convidar o vento a entrar por mim, arrefecendo os sentimentos que se amontoavam, gélidos, arrebatantes, aventureiros, e segui sempre, sem olhar para trás, talvez com medo das almas que não gostam que as olhem e se vingam macabramente no olhar de cada um que arrisca.
Pensava até que me iriam acompanhar, feias e furtivas, montadas no meu pescoço, dando-me um ar feio e detestável a quem me via passar.
Não quis parar nunca, por isso seguia sempre, fazendo tudo andando, acompanhado de nada, porque nada havia no meio da viagem que me interessasse.
Ao fim de trinta e três aldeias como o numero de anos de J.C., abrandei o passo e sempre andando, jantei com três girassóis que viviam olhando para o sol, dormi com uma cigarra que não se calava e sempre andando acordei ao lado das pedras que pisava todos os momentos.
O caminho não tinha tamanho, era difícil saber o fim do fim mas não me importava, afinal o sonho era o fim do mundo que perguntava e o segredo do fim o começo de tudo.
Passei pelo pomar de maçãs, irmãs da outra que nos castigou quando entrou na boca de Adão, sorri e agradeci elas serem irmãs daquela e perguntei se ela ainda vivia, porque afinal a maçã nunca morre, o pecado é indestrutível, renascido sempre, filho do filho de outro filho que nunca morre.
Talvez por isto teria começado esta viagem, talvez por isto a minha vontade de saber, o pecado era parte de mim, como água que não se vê e enche o nosso corpo, o pecado que nos faz viver, porque nos ensinam a não pecar, quando o mais sábio era não nos ensinarem a fazer tudo o que o nosso corpo sente e quer, e por aí não houvesse vontade de conhecer o lado mau instituído por quem gosta mesmo do pecado.

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